Às vezes conseguir escrever sobre o parto demora mais e dói mais que o próprio parto. Percebo que foram criados muitos nós em mim no parto da Lia e eu achava que precisava desatá-los antes de escrever sobre ele.
Mas sinto que hoje é o dia que sai esse relato, hoje é a data provável do parto dela, 17 dias depois do seu nascimento, então faz-se o parto do relato.
Antes, uma breve apresentação da gestação. Quando eu e o Suel confirmamos a gravidez, ela já cursava o 2º mês e foi muita felicidade pra gente! Logo parei com bebida alcoólica e por mais difícil que fosse, parei com o cigarro (fumava 1 maço por dia há mais de 15 anos), equilibrei minha alimentação, comecei yoga. Até o final do 3º mês eu chorava muito e achei que fosse enlouquecer! Logo em seguida o Suel veio morar comigo e casamos, tudo ficou mais tranquilo quando iniciamos a vida a três. Logo também encontrei uma parteira na cidade que fazia grupos semanais com outras gestantes, e uma doula que junto com outras mães criou uma Roda de encontros e trocas, dois espaço super importantes. Aos poucos eu e o Suel fomos amadurecendo a ideia de fazer o parto em casa de forma tranquila e humanizada, longe das possíveis intervenções médicas como cesárea desnecessária, episiotomia (corte do períneo), analgesias.... Devorava livros, textos e vídeos sobre parto normal humanizado, queria estar informada, preparada. Quando falávamos que o parto seria em casa, para algumas pessoas era como se pulássemos obstáculos e para outras recebíamos apoio genuíno, como do meu sogro. De qualquer forma era descobrir mundos novos! Escrevi uma carta pra Lia, pra ela entender todas essas reações em volta: Carta à minha Lia.
Com 36 semanas tivemos um encontro com a parteira, tiramos mais dúvidas, acertamos o material pro parto e ela avisou que estava indo pra um encontro de parteiras na Bahia voltaria no final da próxima semana, desejamos boa viagem, ainda tínhamos muito tempo pela frente. Ainda estávamos terminando nossa casa, tudo daria tempo até a 40ª semana, mas com certeza o parto seria ainda depois...
Com 37 semanas e 1 dia senti duas fortes contrações de braxton-hicks num intervalo de 12 horas, a médica do pré-natal falou "hora de pôr o pé no freio". Tudo bem, a previsão era trabalhar só mais essa semana e depois pegar 2 semanas da licença pra pôr a casa em ordem e descansar. Com 37+3 saiu um pouco de tampão pela manhã, uma caminhada no meio do dia me cansou bastante e saiu mais tampão à noite. Um tanto aflita, tirei dúvidas com as meninas da Roda que me acalmaram, o trabalho de parto poderia iniciar depois de semana. Dormi. Às 2h30 da madrugada acordo pra fazer xixi (rotina), mal levanto e a água desce pelas pernas, era quente, mas não era xixi... Bolsa rompida! Grito pro meu marido, chorosa, não era hora decididamente! Mas a hora do bebê não é a nossa.... Como estávamos morando provisoriamente numa kitnet, arrumamos tudo que seria aprontado 2 dias depois... Pegamos o carro às 5h da manhã pra ir pra nossa casa, a quarenta minutos de estrada dali, era preciso pegar nossas roupas, e nossa casa estava em obras, recém-pintada, um caos... 6h da manhã eu sentia contrações que eram como cólicas menstruais, suportáveis. Descansei um pouco e arrumei nossas roupas pra maternidade. Como desejava o parto normal, não pretendia ir direto pra lá, mas como nossa casa fica a 2 horas da maternidade escolhida, a ideia era procurar um pousada lá perto até entrar em trabalho de parto. As mães da Roda me ajudaram tirando dúvidas, me ligaram, me acalmaram, foi ótimo. E como eu pensava na parteira! No carinho que a gente queria pro parto. E perguntava pra Lia porque ela escolheu vir NAQUELE MOMENTO? Ela respondia se empurrando pra baixo... Pegamos mais uma vez a estrada, as contrações mantinham-se suportáveis mas já se intensificavam.
17h chegamos nas redondezas da maternidade e às 18h conseguimos uma vaga em pousada. Ali me esbaldei no banho quente e nas sensações das contrações, que já eram bem mais fortes e se aproximavam a uma vontade de fazer cocô - às vezes fazia mesmo, o corpo precisa expulsar. Tentava contar o intervalo das contrações, parecia que elas não entravam num ritmo, uma amiga da Roda me ajudou pelo facebook, mas como isso me desconcentrava e parecia aumentar a dor, deixei a contagem de lado e senti o processo. Dormia entre algumas contrações, pra descansar o máximo possível. Era meia-noite e numa contração saiu mecônio, já tinham me alertado pra procurar o hospital caso isso acontecesse. Então, assustada, com contrações de 5 em 5 minutos, chamei o Suel e fomos pra maternidade.
Capítulo à parte... Pensei muito mais na parteira e na Roda e em como tínhamos planejado um parto tão lindo.... Cai na realidade. As atendentes demoraram bastante pra fazer minha entrada, isso era quase 1h da madrugada e éramos os únicos da recepção... Na triagem, o médico plantonista não deixou o Suel entrar. Na sala estavam o médico e uma enfermeira, ele com a pior cara que já vi, realmente um ogro, perguntou o que eu tinha. Disse que estava com bolsa rota, contrações de 5 em 5 e mecônio, ele com cara irônica perguntou: "você sabe o que é mecônio?", "sim, o cocô da minha filha".... "está com contração agora?"; "não sei"; "não sabe? então não é contração!"; "não sei porque estou muito nervosa agora e já não sinto mais nada".... era preu deitar naquela cama horrorosa de ginecologista, ele fez um toque sem aviso prévio e disse que eu não tinha bolsa rota e aquilo não era mecônio, era sangue - e ainda explicou "sangue em grande quantidade fica verde"... Pediu minha internação. Em tempo, estávamos com o ultrassom marcado pra dali 3 dias, o último que tínhamos feito foi com 20 semanas, então tínhamos muita curiosidade em saber a posição da bebê. O plantonista pediu ultrassom pro dia seguinte (afinal eu não tinha contrações).
Eu e o Suel fomos levados para o quarto, eu disse que não queria nenhum remédio nem soro. Me informaram que eu podia usar o chuveiro (apesar da maternidade não fornecer toalha), fiquei no chuveiro sentindo as contrações e parecia que agora elas estavam realmente progredindo! Nenhuma enfermeira, nem auxiliar entravam no quarto... Aquilo não era mecônio?? O chão do box estava quase todo verde. Ninguém pra me ajudar ou sanar minhas dúvidas. A situação era como a da pousada, mas pelo menos ali eu podia deixar o trabalho de parto fluir. Saí do chuveiro e tremia muito de frio por dentro, fiquei com o Suel no quarto, sentindo as contrações de cócoras enquanto ele fazia massagem na minha lombar. Uma hora eu sentei na cama, olhei pro Suel e disse que estava muito esgotada, parecia que o mundo todo derretia em minha volta, eu derretia junto, então lembrei dos livros e da parteira, devia ser o período de transição! Quando parecia que só sentia contrações, sem intervalos, acionei o botão da enfermeira. Ela demorou muito, voltei pro chuveiro e fiquei lá de cócoras, parecia que eu sentia a cabeça da Lia! Passou um pouco o Suel me chamou pois a enfermeira tinha chegado e eu precisava deitar na cama pra fazer o cardiotoco, exame que durou eternidade! Eu já gritava nas contrações e a enfermeira disse que se eu não tivesse com dilatação não adiantava gritar e fazer força, só ia machucar o colo do útero... Mas era grande demais a vontade de gritar, ainda mais deitada daquele jeito!! Terminado o exame, a enfermeira fez o exame de toque e disse que já eram 10 dedos de dilatação, mostrou pro Suel a cabecinha descendo e disse que aquilo verde era mecônio sim... "vamos pra sala de parto". Ela me perguntou há quanto tempo a bolsa tinha rompido (desde a chegada na maternidade ninguém tinha feito essa pergunta diretamente e eu tinha medo de responder, porque pelas estatísticas no Brasil, se soubessem que eu estava há mais de 12 horas com bolsa rota iriam me introduzir antibiótico e há mais de 24 horas com bolsa rota, iriam fazer uma cesárea, com presença de mecônio mais indicação de cesárea ainda!). Olhei pro Suel, olhei pra ela e perguntei se era ela que faria meu parto (eu fui praquela maternidade porque a maioria dos partos eram feitos pelas enfermeiras obstetras!), a enfermeira disse que sim, e eu disse que estava com bolsa rompida há 25 horas, mas que eu não queria cesárea de jeito nenhum. Descemos.
Lá embaixo, passamos pelo médico-ogro antes de entrar na sala de parto... Entrei e já subi na cama, fiquei de cócoras pra contração, Suel massageando minha lombar. A enfermeira falou preu deitar, olhei com cara de ponto de interrogação, como que eu ficar de cócoras deitada? O médico-ogro sentou lá na frente e eu perguntei se não era ela quem iria fazer o parto!? Ela disse que não, porque a bolsa tinha rompido há muito tempo (maldita sinceridade!) e tinha mecônio. O médico-ogro logo pediu a tesoura... e eu disse que episiotomia NÃO! Ele, com aquela cara de irônico, disse que precisava fazer, que tinha risco de sofrimento fetal e blábláblá, eu disse que assumia a responsabilidade, ele disse que todos eram testemunhas e a enfermeira me falou que era melhor fazer, porque o batimento cardíaco do bebê estava muito alto e com muito mecônio, blábláblá, olhei ao léo, disse que eu só podia estar no inferno, que lugar e pessoas horríveis. Me senti péssima, perdedora, derrotada, num massacre. E aquele ogro me cortou. Eu já não sentia dor, nem contração, nem mais nada. Daí veio uma contração forte, todos falavam preu empurrar, vai, com força! Comecei e... a enfermeira subiu em cima da minha barriga! Eu falei que NÃO, "sai de cima da minha barriga!!", perdi a concentração e a contração.... o médico-ogro falou "Não adianta gritar, fazer força na garganta, o bebê vai nascer aqui por baixo", e eu: "você pode entender que essa é a primeira vez que eu faço isso??" veio outra contração, todos juntos "vai, com força!", a enfermeira montou na minha barriga de novo, fechei os olhos, fiz a maior força que podia e comecei a sentir minha filha sair de mim - blom, blom - quando achei que tinha acabado o Suel falou: "vai, continua, não pára", eu não entendi, mas continuei fazendo a maior força. De repente todos, "pronto, nasceu, de bunda!!" Abri os olhos e estava lá minha filhota linda, chorando, pendurada pelas pernas na mão daquele ogro, eu queria agarrá-la pra salvá-la! Mas o médico-ogro não deixou (lógico). Ele estava estupefato e me deu parabéns. A pediatra também deu parabéns, todos achararam incrível aquela façanha! Bebê nascido de bunda em parto normal!! Pegaram a Lia, já logo cortaram o cordão umbilical, tiraram o vérnix, meteram um monte de tubo e coisas nela. Eu já tinha perdido aquela batalha, queria pega-la nos braços, mas precisava do aval da pediatra. Enquanto isso, puxaram minha placenta pra fora, o médico-ogro disse que a enfermeira ia costurar o corte e deixar tudo como era antes (olhando pro Suel!), aquele corte terrível que o médico-ogro fez em mim, na minha vagina, na minha vida, pra sempre na minha lembrança. A sutura demorou mais do que o cardiotoco, mais que a travessia até a maternidade... foram 15 pontos. Aquilo estragou a felicidade e o êxtase pleno que eu estava sentindo, a felicidade com meu marido, a chegada da Lia. O Suel não se cabia em si e eu não conseguia falar mais nada, só pensar na minha dor, naquele racha e via minha filha lá longe. Depois de meia hora ela veio pro meu colo pra mamar, eu pude tomar banho e ir pro quarto. As horas que se passaram depois foram de êxtase e cansaço, muito amor com o Suel e com a Lia, aquilo ali sim era felicidade e plenitude, só nós 3 no quarto.
A gente ainda ficou 5 dias na maternidade. Depois da violência obstétrica, sofremos a violência pediátrica, tudo a que se tem direito num hospital. Saí de lá acabada, arrasada, sem dormir 2 noites seguidas, com dores na alma mais que no corpo. Eu e o Suel (e quem sabe a Lia um dia) temos certeza que nosso próximo parto vai ser em casa, com 3 equipes pre-avisadas, intervenção hospitalar só se extremamente necessária!
Por fim, nos 5 dias de hospital após o parto, ninguém me examinou, só viram meu corte porque eu pedi. Por sorte, nossa parteira veio em casa assim que chegou da Bahia e fez um ótimo tratamento para a cicatriz e para meu trauma.
Hoje faz 17 dias que tudo isso se passou e a Lia dorme mansamente no meu colo. Mama, chora e caga como toda recém-nascida saudável. E ela abraça a gente com o olhar... Linda Lia.